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segunda-feira, 7 de abril de 2008

Final de semana sem perspectiva?

Na sexta-feira teve uma festa no apartamento do Dom (britânico) e do Max (francês).
Do jeito normal de sempre: leve suas bebidas que há comida te esperando.

Cheguei meia-hora atrasado, 20h, mas o suficiente para pegar a comilança desde o começo. Havia aproximadamente 15 pessoas por lá, quase todos gringos, somente 2 ou 3 eslovacos.
Entendível mas engraçado como estrangeiros tem uma tendência natural de se aglomerarem...

Fizeram uma espécie de comida turca - pão sírio com vários recheios separados em pratos. Você escolhia o que você queria e montava o seu "prato". Nada de especial entre os recheios: tomate, alface, carne moída, pimentas.

Tinha muito vinho, meia garrafa de absinto e algumas bebidas estranhas (álcools típicos da Eslováquia, as "icas" da vida: slivovica, borovička, čerešňovica...).
Como sempre, em todas as festas existem formas bizarras de se beber álcool e nesta não foi diferente.
Cheguei na cozinha e o pessoal estava brincando com absinto: coloca-se açúcar numa colher, derrama-se absinto (e deixa o restante cair num copo, embaixo) e ateia-se fogo na colher. Espera-se o açúcar derreter e ainda com fogo na colher, coloca-a dentro do copo. Com o copo pegando fogo, mistura-se o açúcar com o restante de líquido, espera o fogo se apagar e bebe a mistura.
Apesar de já ter ouvido falar disso, eu confesso que a princípio eu fiquei assustado com o ritual todo! haha
Mas claro, não poderia deixar passar e lá foi eu manejar o coquetel.

Analisando bem, é engraçado como bêbado é sem noção: atear fogo na bebida para depois beber? É algo totalmente paradoxal, uma vez que quando o fogo se apaga ou é por dois motivos: falta de comburente (oxigênio) ou combustível (no caso, álcool). Como eu não estava asfixiado, cheguei à conclusão de que não tinha mais álcool e o que eu bebi era apenas água (e outras coisas) com açúcar. Não era à toa que aquilo tinha gosto de melado. Foi bom até.

De lá fomos para um pub, já era 23h. Alligator, um pub que toca rock/metal. Bom, como era se esperar, as pessoas não conseguiram ficar lá por muito tempo, principalmente por que a maioria não curtia a música. Mas valeu o gostinho, tocou Sepultura (banda brasileira em pub eslovaco, foi demais)!!

Já era 01:30h e a cambada resolveu ir para uma balada. É uma balada em um barco que fica ancorado no Rio Danúbio.
Rumamos para esta balada mas eu não queria entrar (e principalmente pagar), então dei meia-volta e fui para casa, mesmo por que já estava bem cansado.

O sábado foi light. Acordei já era 13h, resolvi ir ao Slovak Pub para comer batata com bacon e passar o resto da tarde no parque.
Detalhe para o tempo agora: sol quase todos os dias até às 19:30h, temperatura durante o dia, em média, 18ºC! Impressionante mas o humor das pessoas já mudou, todos estão nas ruas, nos parques, sentados, conversando na grama, num clima descontraído. A cidade toda parece um Ibirapuera em dia de final de semana.
À noite eu tinha uma reunião (pelo Skype) com o Rafael, para finalizar uns assuntos da comissão de formatura. E tinha coisa para se conversar! Fiquei das 19h às 01h resolvendo pepinos. Mas valeu a pena.

Acordei no domingo sem perspectiva. Na verdade essa foi a primeira vez que eu não tinha nada para fazer no domingo: nenhuma viagem programada, nenhuma conferência da AIESEC, nenhuma pendência para resolver. Eu estava me sentindo como no Brasil, no domingo. Sabe como eu me sinto no Brasil, no domingo? Escute a música "Domingo" do Titãs que você vai ver. Colocarei aqui um trecho da música:

"Tudo está fechado
Tudo está fechado
Domingo é sempre assim
E quem não está acostumado?

É dia de descanso
Nem precisava tanto
É dia de descanso
Programa Sílvio Santos

Domingo eu quero ver o domingo passar
Domingo eu quero ver o domingo acabar
Domingo eu quero ver o domingo passar
Domingo eu quero ver o domingo acabar"
(Titãs - Domingo)

Então eu já acordei às 12h querendo ver o dia passar.
Sem paciência e motivação nenhuma para cozinhar meu almoço eu fui procurar algo para comer na rua. Não muito distante de casa eu parei no supermercado (hipermercado, na verdade) e no segundo andar fui fazer uma (re)visita ao Fornetti. Fornetti é uma franquia que vende desde salgados/doces folheados a pizza (com uma massa típica). Eu fui de pizza. Comi uma pizza de 8 pedaços sozinho (calma, calma, aqui é normal. É possível comer uma pizza de 8 pedaços sozinho, principalmente por que a massa é da finura da massa de pastel! haha).
Já "triste" de tanto comer e impossibilitado de andar, desafiei minha falta de perspectiva e rumei para o ponto de ônibus, decidido a mudar o cenário e clima de domingo.
E para onde eu ia? Sei lá! Peguei o ônibus de sempre, que me deixaria no centro. No meio do caminho eu lembrei que tinha uma mostra (disponível até outubro) no museu Nacional cujo tema era "A Eslováquia no século 20". Alguns intercambistas já tinham ido nesta amostra e falaram muito bem, e que inclusive tinha versões em inglês. Pronto, já tinha para onde ir, apesar de não saber se estaria ou não aberto.

Cheguei na entrada do museu e li a plaquinha: "Aberto de terça a domingo, das 9h às 17h". Ou melhor: "Utorok-Nedel'a - 9h-17h". Viva!
Paguei o equivalente a 5R$ (desconto para estudante) e me aventurei pela Eslováquia do século 20, por cerca de 2:30h.
A Eslováquia que não era Eslováquia, mas sim uma colônia explorada pelo império Austro-Húngaro;
A Eslováquia dominada pelos Húngaros (tão dominada que teve, no começo do século 20, imposições de ensino da língua húngara nas escolas);
A Eslováquia que conseguiu sua semi-identidade na formação da Checoslováquia de 1918;
A Eslováquia que perdeu sua semi-identidade em 1939 e tornou-se fantoche da Alemanha Nazista;
A Eslováquia que sofreu pela perda de milhares de judeus nos campos de concentração durante o Holocausto;
A Eslováquia que ganhou sua semi-identidade novamente, pós 1945, em seu estado Checoslováquia, expulsando alemães e húngaros de sua terra;
A Eslováquia que perdeu sua liberdade no período vermelho, sobre influência da União Soviética;
A Eslováquia que ganha sua liberdade após a vitória do c apitalismo sobre o socialismo, em 1989;
A Eslováquia que agora sim poderia ser chamada de Eslováquia, na dissolução da Checoslováquia, em 1993;
A Eslováquia da União Européia, em 2004;
A Eslováquia do acordo de Schengen, em Dezembro de 2007;

Por todos estes marcos históricos do país, inclui-se fotos, moedas, uniformes e aparatos de guerra, declarações, muitos vídeos e vários papéis.
Para mim foi como tirar dos livros fatos e datas, o sofrimento de povos e a ânsia pela soberania nacional, e ver tudo alí, ao vivo, "no preto e no branco". Foi uma aula de história.

Saindo museu resolvi passear no centro, não esperando muita gente, como todo "domingo na minha cabeça".
Era um domingo de sol e, ao contrário do que pensei, as ruas do centro velho estavam entupidas de gente!
Turistas e mais turistas, nativos tomando banho de sol no gramado à beira do rio Danúbio. Pais e filhos caminhando. Jovens carregando seus patins nos ombros indo para não-sei-onde. Mães empurrando seus carrinhos de bebê. Cachorros e mais cachorros, alegres e felizes andando com seus donos pela cidade. Foi como reavivar o ânimo e tirar da cabeça que os domingos na Eslováquia são como os domingos do Brasil.
Lojas abertas, feiras e barraquinhas alimentadas pelo turismo do centro velho. Muito, mais muito movimento..

Após cruzar o mar de gente, entrei num café, sentei e pedi um capuccino, com direito a diálogo em Eslovaco! (Jedena capuccino, prosím!)
Saboreei o capuccino ao mesmo tempo que lia o livreto do museu, com os pontos turísticos e amostras/exibições do mês (e já tenhos mais programas agendados - aguardem!)

No meio da leitura eu tive a brilhante idéia de ir ao cinema. Ainda eram 16h e o shopping era "logo alí", então tomei um ônibus (me perdi por uns 15min) e cheguei no shopping.
Como reflexo do centro, mais e mais gente andava para lá e para cá, como os shoppings no Brasil no domingo.
Comprei meu bilhete para a sessão "Onde os Fracos Não Têm Vez" (No Country for Old Men), áudio em inglês e legenda em tcheco!
Como a sessão ia começar em 2h, fui gastar a sola do meu tênis andando pelo shopping e no meio do hall da entrada principal (eu tinha entrado pela lateral) eu me deparo com um torneio de squash e uma semi-arquibancada montada para o público!
Não me lembro a última vez que vi um jogo de squash, para falar a verdade se eu vi eu nunca prestei a atenção, então dei esta chance a mim mesmo, comprei uma água e sentei na arquibancada. Confesso que é um jogo interessante de se ver! Dá até emoção..

Fiquei quase o tempo todo alí, sentado, vendo a bolinha pingando para lá e para cá na quadra montada em 100% de vidro transparente.

Saí dalí, passei na C&A, comprei umas roupas e fui pro cinema.
O filme é excelente e vale a pena! Tive que fazer o esforço de uma mãe que vai dar luz ao filho para entender o sotaque texano do Tommy Lee Jones, mas consegui entender o filme. Ufa.

Já eram 20:30h quando o filme acabou. Cheguei em casa 21:30h, pus a roupa para lavar, mexi um pouco na internet e fui dormir. Afinal, segunda-feira 6:20 me espera..

* Desculpe a ausência de fotos neste relato, mas, como falado, foi totalmente fora de planejamento! ;)

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Frozen People

Ou, em português, "Pessoas congeladas".

A idéia surgiu em Nova York e foi criada por um grupo chamado "Improv Everywhere" (Improviso em todo lugar), liderado por um professor de teatro e formado por diversas pessoas, incluindo estudantes e outros cidadãos nova-iorquinos.
O principal objetivo do grupo é criar situações inusitadas, engraças, em ambientes públicos para simplesmente alegrar a vida do povo. Como dizem eles mesmos no site: "Improv Everywhere is, at its core, about having fun."
Tudo acontece sem aviso prévio ao público e o grupo pode ser de poucas pessoas até centenas de pessoas, dependendo da idéia (por isso difere-se do Flash Mob, pois esta consiste sempre em multidão, como a famosa guerra de travesseiros).
A mais famosa das invenções (chamadas de missões) deste grupo é o "Frozen People", que consiste em chegar uma multidão de agentes (como são chamadas as pessoas que participam das missões) num determinado lugar público, movimentado, e em um determinado momento os agentes se congelam por 5 minutos.
É tudo muito natural. Os agentes estão "camuflados", são pessoas normais andando em lugares movimentados, onde a impessoalidade reina. De repente todos os agentes se congelam e àqueles que passam pelo lugar ficam intrigados, curiosos, com uma nova história para contar no final do dia. Este é o intuito.
Já aconteceu na estação central de Nova York (primeira vez) e se espalhou pelo mundo: Londres, Berlim, Quebec, Hong Kong, Cidade do México, enfim, a lista completa você pode conferir aqui. São mais de 27 países segundo o site. Como a contabilidade é independente, eu assumo que este número já deva passar de 50! :) Se brincar já até aconteceu no Brasil também.

Ontem aconteceu aqui em Bratislava, no meio do Shopping Aupark (o maior da cidade) e, claro, eu não pude perder! Eu lembro que quando eu estava no Brasil eu sempre via estas coisas acontecerem e, de certa forma, reclamava: "Putz! Podíamos fazer estas coisas no Brasil também.." ou, para ser franco, eu sempre soltava "Ahhh mas é uma porcaria morar no Brasil mesmo!!!" haha
Sempre me simpatizei essas "atoices" e agora que estava acontecendo eu não podia deixar passar!
Recebi um SPAM na segunda-feira com data de encontro para instruções de onde, como e quando congelaríamos, mas infelizmente não pude atender, pois estava trabalhando. Sabia-se, pelo email, que o horário seria 17h, porém os detalhes (como qual seria o sinal para congelar) só seriam divulgados na reunião às 16h, numa praça perto do shopping.
Fiz alguns contatos e descobri que alguns AIESECers iriam congelar também, então agendei com eles que chegaria uns 5 minutos ates do congelamento e pegaria as instruções com eles.
Sai do trabalho, corri um pouco, peguei o ônibus e consegui chegar a tempo, exatos 5 minutos antes. Encontrei dois AIESECers que estavam zanzando pela entrada e eles me passaram as infos. Tudo pronto.
O sinal seria em eslovaco, dado através de um microfone que estava sendo instalado em um palco no meio do hall de entrada e seria algo como aquele teste de microfone: "Um, dois três, testando!". Algo normal!
Passados os 5 minutos, uma voz, em eslovaco:
_ "Jeden, dva, tri..microfona!"

Algumas pessoas estavam andando, outras paradas lendo livro, outras namorando, algumas bebendo água, outras sentadas anotando algo. Eu estava colocando minha jaqueta e congelei com um braço semi-aberto, colocando uma manga da jaqueta. Foram aproximadamente 50 pessoas congeladas em posições inusitadas!

E o resto do público andando, ou melhor, tentando andar, por que as 50 pessoas, querendo ou não, acabavam atrapalhando o trânsito. Eu não entendia o que as pessoas ao redor falavam, mas a cara de espanto valeu mais do que mil palavras! hahaha

Cinco minutos depois, a mesma voz:
_ "Jeden, dva, tri... microfona!"

Todos descongelaram e continuaram andando, ou fazendo o que estavam fazendo antes, como se nada tivesse acontecido. Eu estava cruzando o hall na hora, então terminei de colocar a jaqueta, parei para conversar com os AIESECos e saimos do hall para o supermercado.

Dêem uma olhada no vídeo e a foto (indicativa): apesar da péssima qualidade do vídeo e horripilante montagem, eu apareço, entre outros momento, no minuto 2:00, bem embaixo da tela, embora não dê para reconhecer direito (se você analisar dá pra ver a parte prateada da toca da minha jaqueta - é, eu sei que é demais..hehe).




Eu aconselho dar uma passada no site Improv Everywhere (em inglês) olhar as outras missões, pois são muito engraçadas, especialmente a missão The Moebius, que consistiu em repetir, por aproximadamente uma hora, a mesma sequência de eventos dentro da cafeteria Starbucks: um casal discutindo, um cara derrubando café/água, outro saindo para ir no banheiro e esbarra na cadeira, e um cara entrando por uma porta e saindo pela outra tocando uma música - tudo isso sincronizado e exatamente igual, por 12 vezes.

Let's improv the fun! :)